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terça-feira, 27 de março de 2012

O nome do Brasil e o mundo céltico




A mitologia céltica está presente ainda hoje nos países de tradição atlântica, e entre eles, a Galiza e o Portugal originariamente galaico, ainda que dous dos países onde vulgarmente é mais conhecido e reconhecido o seu caráter céltico são a Irlanda e a Bretanha. Nestes países as mitologias referidas a heróis guerreiros ou as hagiografias referidas a santos assimilados a partir de lendas pré-cristãs estão presentes ainda neste século XXI.

Neste artigo que começo, quero resgatar o relacionamento que há entre uma velha lenda irlandesa mas também bretã e o étimo que nos chega muito pertinho aos galegos, tanto pelo que de celta tem o tema, quanto de lusófono. Esta é a etimologia do grande e irmão país sudamericano que muitos galegos vemos verde não só pela cor das suas matas, mas pela esperança que em nós alimenta. É a etimologia do Brasil:

Assim, contam-nos as lendas atlânticas que foi Breasail o grande Rei do mundo que vivia numa ilha do Atlântico, para além do ocidente da atual Irlanda. O seu país era chamado Hy-Breasail e só podia ser visto um dia cada sete anos porque a brétema perpétua só isso permitia para que os olhos da gente pudessem admirar a beleza daquela terra perdida no oceano.

Ele e os seus chegaram a velha Irlanda chefiando as tropas dum exército que lutaria contra os habitantes da ilha cujo Rei daria em doação terras aos invasores onde segundo também conta a lenda fundaram a cidade de Gaillimh, conhecida com a grafia inglesa como Galway, que é o nome da filha do Rei Breasail -Gaillim inion Breasail-, afogada no rio Corrib que discorre por essa cidade.

Os descendentes de Breasail seriam os O’Breasail de Irlanda, nome familiar ainda existente hoje e a ilha da qual procediam foi assimilada com a Ilha de Ávalon, Tir na nOg e mesmo a perdida Atlântida com a qual partilha muitas similitudes.
A palavra “Breasail” acolhe grande variedade de formas em gaélico: Brasil, Berzil, Brazir, Breasil... e tem sido bastante comum como nome de pessoa graças a que o mito foi cristianizado e daí deu o nome do santo irlandês Brecan (Breogam ?????).

Breasail parece significar “Vermelho” em gaélico, que é o nome que recebe também o cinábrio ou sulfureto de mercúrio, mineral de cor vermelha e brilhante utilizado para pôr cor nos cabelos e no corpo das pessoas. Este nome gaélico dá na nossa língua “varzino”, em castelhano “bracino” e mesmo em catalão “barcino” donde poderia derivar a palavra Barcelona (BARKINONAN>Barcelona em acusativo céltico segundo Higino Martins língua franca na península e na Gália em época pré-romana).Quiçá tivesse a ver com a cor dos cabelos do herói do que estamos a falar como também do cinábrio com que comerciariam os próprios povos célticos com os mediterrânicos latinos, fenícios e gregos (lembremos que o nome de “fenícios” vem do grego “Phoenikés” que significa “púrpura” ou vermelho, cor com que tingiam os tecidos com os que comerciavam graças a uma fórmula especial que eles conheciam)

É de todos sabido que a Idade Média não é época de conhecimentos científicos contrastados e empíricos tal como os percebemos hoje, mas todo o contrário, é época de mitos e de lendas transmitidas de forma oral e poucas vezes escrita. Essas lendas seriam crenças populares cuja veracidade não tinha discussão na altura, sendo pelo contato cultural e comercial de tradição milenar como se espalhariam estas histórias entre os povos atlânticos. Por isso era totalmente real para a gente do medievo a existência de ilhas como a Antilia, a Ilha de São Brandão, a Ilha das Sete Cidades, as Ilhas Afortunadas e a Ilha de Hy Brasil, Ibrasil, Brasil ou Breasail. Essa visão do cosmos era representada sem qualquer dúvida nos cartulários anteriores ao chamado “descobrimento” de América como podemos comprovar nos mapas de Dalorto (1325), Dulcert (1339), Laurazziano-Gaddiano (1351), Piziganni (1367), Giraldi (1426), Giovanni di Napoli (1430), Beccario (1426 e 1435) Valsequa (1439), Bianco (1448), Pareto (1455), o anónimo de Weimar (1481), Benicassa (1482), Juan de la Cosa (1500)... representando-se em todos eles como uma ilha com um lago interior e com forma anelar. O próprio Cristóvão Colombo teve que estar em contato com esses mapas, pois como se nos informa em textos conservados hoje, ele foi cartógrafo durante muitos anos em Lisboa.

Segundo a informação que tiramos do Atlas de Oliveira Marques e Alves Dias “Atlas Histórico de Portugal e do Ultramar português”, o navegador Duarte Pacheco Pereira chegou à terra dos tupis em 1498, dous anos antes da chegada do descobridor oficial do Brasil Pedro Álvares Cabral e cinco depois de alguma outra expedição da qual não temos ainda toda a informação mas da que algo sabemos. A região aonde estes navegadores chegaram recebe o nome de “Ilha de Santa Cruz”; posteriormente há de ser “Terra de Santa Cruz” e só poucos anos depois é que vai receber o seu nome definitivo de “Brasil” por acreditavam os coevos que aquela era um ilha afastada do resto do continente americano pelos rios Orinoco, Paraguai e Rio da Prata. Era a terra que identificavam com a mítica ilha registada em todas as cartografias e em todas as informações textuais desde a “Insulae Purpuraricae” (Ilha Vermelha ou de cor Púrpura) do romano Plínio o Velho

A tradição mais recente faz derivar “Brasil” do pau-brasil que tem um dos seus extremos vermelhos como as brasas, sendo esta uma planta muito importante para o comércio português, mas também é o nome das madeiras de cor avermelhada para tintura que foi denominada de Brisilicum pelo Duarte Pacheco em 1505, ou “Tinta do Brasil”.
Todos estes enganos favoreceram a confusão na altura da etimologia do Brasil como sinónimo da ilha do Além atlântico com o nome duma ou várias madeiras e mesmo de “brasa”.

Diz-nos Frei Vicente do Salvador que o nome do Brasil foi inspirado pelo diabo, pois Santa Cruz (o primeiro nome que recebeu o país) era referido à madeira da cruz onde fora crucificado Jesus Cristo e em troca “Brasil” era madeira mundana.
De qualquer jeito parece-nos que o nome originário céltico pode dever-se não unicamente à tradição cartográfica medieval mas também aos contatos entre a Irlanda, também a Bretanha, onde aparece também a lenda de Ilha do Além com o mesmo nome do que estamos a falar e destinada a receber os guerreiros que tiveram uma morte honrosa no campo de batalha, e a Galiza com Portugal, como prolongações do mundo céltico e atlântico em contato milenar com as Ilhas Britânicas e a própria Armórica. Eis o vínculo entre esse mundo atlântico europeu com o grande Brasil...e acreditamos que pelo meio está o elo da Galiza, ponto de conexão entre ambos mundos: o céltico e o lusófono.

Bibliografia:


Ana Donnard: O outro mundo dos celtas atlânticos e a mítica Brasil, ilha dos afortunados: primeiras abordagens.NuntiusAntiquus.

J. Chrys Chrystello: Chronicaçores: Uma circum-navegação. De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até os Açores. (Volume 1) http://es.scribd.com/doc/39955110/CHRONICACORES-UMA-CIRCUM-NAVEGACAO-DE-TIMOR-A-MACAU-AUSTRALIA-BRASIL-BRAGANCA-ATE-AOS-ACORES-VOLUME-UM-DA-TRILOGIA

Quintus: As Ilhas míticas do Atlântico: Ilha Brasil http://movv.org/2006/11/26/ilha-brazil/



domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Que é Hy Brasil?


CANTARINO, Geraldo. uma ILHA chamada BRASIL: O paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Muad, 2004.
Trecho retirado integralmente das páginas 42 e 43 do livro acima citado.


Em busca de definições, fui direcionando o curso para fontes menos convencionais. No Dictionary of Imaginary Places, por exemplo, Brasil aparece como sendo uma ilha representada por um grande círculo de terra cercado de pequenas ilhas: “Os simples mortais não conseguem vê-la e apenas alguns poucos escolhidos foram abençoados com a visão de Brasil.” O Dictionary of Celtic Mythology de James Mackillop, publicado em 1998, diz que Hy Brasil, Brazil, Breasil, Breasal ou simplesmente, Brasil é uma misteriosa ilha, um paraíso terrestre que se pensava existir na mesma latitude da Irlanda, mas em alto-mar. O Dictionary of Irsh Myth and Legend, de Ronan Coghlan, a define como uma ilha lendária do Atlântico supostamente a oeste da Irlanda e que se torna visível a cada sete anos. O livro The Annals of the Magic Isle, de Ralph Caine, descreve O’Brasil, a Ilha dos Abençoados, com mais precisão ainda quanto a sua forma e posição: “ela aparece a menos de 50 milhas a oeste, sempre a oeste, a partir do litoral do condado de Kerry; quase redonda e com 20 milhas de diâmetro!”
            Muitas outras definições foram surgindo no meio do caminho, aqui e ali. Há quem acredite que Hy Brasil existiu de verdade num passado distante. Para outros, a ilha faz parte de uma categoria de objetos e lugares indecifráveis, de existência duvidosa, permeando os limites entre o mundo real e o imaginário. Hy Brasil aparece, por exemplo, na Encyclopedia of Things that Never Were, como uma ilha do oceano Atlântico, “provavelmente na mesma latitude dos Açores, apesar de ter aparecido tanto ao norte quanto ao sul da Irlanda. Na Antiguidade, a ilha desfrutou de um próspero comércio de pau-de-tinta, como pau-campeche, usado para tingir tecidos dos fenícios, romanos e egípcios.”


            Inicialmente puros, descreve a enciclopédia, seus habitantes teriam sido corrompidos pelo contínuo contato com navegantes desregrados e libidinosos. A chegada de santos missionários teria restaurado de vez a vocação original da ilha. Os ilhéus, muito impressionados com a marinharia desses santos, que navegavam pelo oceano em barcos de pedra, resolveram abandonar suas traquinagens. As gerações seguintes se tornaram tão moralmente puras que a ilha acabou rompendo suas conexões mundanas e partiu para um outro plano, entre o Céu e a Terra. Hoje, Hy Brasil pode ser vista apenas por aqueles que estão livres dos desejos do mundo. Mesmo assim, é bem provável que seja apenas uma visão fugas, numa rara e sublime aparição, vislumbrando-a acima da linha do horizonte durante o pôr do sol.
            Há os que dizem que a ilha não tem endereço fixo no mundo que conhecemos e nunca aparece duas vezes no mesmo lugar. Raramente é alcançada pela visão humana, com exceção apenas de crianças e sonhadores, que estão abertos para o mistério. Hoje perdida sob as ondas, no fundo do mar, e relegada ao domínio do mito – nos contam outros tantos – Hy Brasil foi um dia uma terra encantada, onde vivia tudo que era belo e misterioso, um reino de fadas e de cores que ficava além do arco-íris.
            Mas nem tudo é um mar de rosas quando se fala em Hy Brasil. Muita gente a viu com outros olhos, como sendo um sinal de mau agouro, um feitiço fatal que provocaria uma morte lenta, num período de sete anos, em quem a visse. Essa ilha diabólica também seria a residência de gigantes que poderiam invadir a Irlanda a qualquer momento.


            E há quem jure de pés juntos que o encanto não se perdeu e afirme que, o mesmo depois de séculos, Hy Brasil continua sendo o esconderijo de criaturas mágicas, cuja existência é negada na terra dos homens. É a morada escolhida por fadas, dragões e deuses aposentados. Ou, ainda, duendes, gnomos e antigas tribos, quando não mais encontraram um lugar no mundo contemporâneo. Em Hy Brasil, comentam alguns, a sabedoria do passado está preservada e a antiga magia continua viva como em nenhum outro lugar. É pra lá que vão os sonhos esquecidos, tornarem-se realidade.



Sláinte!!!










terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mitologia Celta da Irlanda - parte 3 (Ciclo dos Reis e Imramma, Jornadas ao Outro Mundo )



Ciclo dos Reis

Descrito como “menos mágico do que o Ciclo Mitológico, menos heróico do que o Ciclo do Ulster e menos romântico do que o Ciclo Feniano” (James MacKillop), o Ciclo dos Reis retrata os feitos de diversos reis históricos de pequenos reinos locais da Irlanda. É importante alertar que a palavra “rei” no sentido celta é bem diferente da visão moderna do déspota plenipotenciário ou da figura alegórica que caracterizam os reis no imaginário popular de nossos dias. O rei celta deveria ser “física, mental e espiritualmente íntegro”, pois de seu casamento simbólico com a Soberania do Reino dependia a prosperidade da terra e de seu povo. Os reis celtas costumavam ser escolhidos não por sua linhagem, mas por seu valor e sabedoria – o que não impedia o estabelecimento de famílias reais que deram origens à visão da liderança dos clãs. A própria palavra ‘clã’ vem do irlandês clann, literalmente, ‘família’ – não a família nuclear que conhecemos, mas a família estendida, a tribo. É o que vemos em Baile in Scáil, “O Êxtase Poético do Espectro” no qual o ‘espectro em questão é ninguém menos que o poderoso deus Lugh surge ao lado de sua esposa, a Donzela da Soberania da Irlanda, diante do rei Conn “das Cem Batalhas” para lhe oferecer a taça com a cerveja vermelha da Soberania – um tema intimamente associado à imagem do Graal arthuriano. A pergunta que o cavaleiro Perceval deveria ter feito ao Rei Pescador no romance medieval Persival – “a quem serve o Graal?” – surge nesta lenda irlandesa anterior e pouco conhecida: ao ofertar o cálice com a cerveja vermelha a Donzela da Soberania pergunta a Lugh: “a quem devo ofertar esta taça?”

Outro texto importante deste Ciclo é “A Loucura de Suibhne”, em que o Rei Suibhne, o Louco desafia o cristianismo de São Ronan e, como resultado de ‘maldições’ lançadas pelo cristão, enlouquece e passa a viver como um pássaro, voando pelos bosques da Irlanda e recitando poemas que são verdadeiras odes à Natureza e às árvores. Pelo paralelo facilmente estabelecido com a história britânica de Myrddyn / Merlin, que também ‘enlouquece’ e passa a profetizar em meio à natureza, podemos identificar em ambas as histórias sobrevivências de elementos xamânicos pré-cristãos da espiritualidade celta.

Imramma, Jornadas ao Outro Mundo
 
Outro componente de natureza bastante xamânica da literatura celta irlandesa são as lendas conhecidas coletivamente como immrama, ou literalmente, “remações”, viagens por água, que são jornadas ao outro mundo – retratado como ilhas sagradas a oeste da Irlanda. Entre elas, citamos a “Balada de Oisín no Outro Mundo”, em que o herói Oisín, filho de Fionn Mac Cumhaill, viaja para Tír na nÓg, a ‘Terra da Juventude’, numa jornada por mar em companhia da belíssima – e divina – Niamh “dos Cabelos Dourados”. Lá ele passa 300 anos como esposo de Niamh, que lhe concede três filhos. Quando ele decide visitar a Irlanda, Niamh tenta demove-lo da idéia, mas por fim ele parte no cavalo branco dela, com instruções expressas de jamais descer do cavalo. Ao retornar, a Irlanda que ele encontra está transformada – os grandes e nobres Fianna haviam desaparecido, os homens são fracos e sem dignidade. Por fim, Oisín acaba descendo do cavalo, o que faz com que ele envelheça todo o tempo que ele estivera fora.
Em “A Viagem de Bran mac Febail”, o protagonista também é atraído ao Outro Mundo por uma linda mulher que lhe surge num sonho (transe xamânico?). Sua jornada pelos domínios do deus Manannán (o mar) é plena de maravilhas, passando por diversas ilhas mágicas repletas de simbolismo até que também ele retorna para uma Irlanda que ele não reconhece – afinal, o tempo passado no Outro Mundo correra de forma diferente... ele relata suas aventuras usando varetas com inscrições em Ogham – o alfabeto sagrado dos druidas irlandeses – e em seguida retorna para o Outro Mundo.
A imram de Bran é em diversos aspectos muito semelhante à de Mael Duin, e seu simbolismo oculto foi ricamente explorado pela autora Caitlín Matthews em sua obra “O Livro Celta dos Mortos”, um inspirado trabalho oracular facilmente compreendido por quem se disponha a estudá-lo.
Elementos de ambas são encontrados na obra Navigatio Sancti Brendani, a “Viagem de São Brandão, o Navegador”, um místico irlandês que, no século VI, teria feito uma jornada a terras pardisíacas a oeste da Irlanda. A popularidade desse texto levou-o a ser redigido em diversos idiomas, inclusive no português – daí não ser difícil estabelecer uma correlação bastante direta com a nomeação, em eras posteriores, das terras descobertas pelos portugueses na América com um dos nomes das ilhas sagradas da mitologia irlandesa, alcançada justamente por uma imram: Hy Brasil, a “Ilha dos Abençoados”. O fato de São Brandão de Clontarf ser uma personagem histórica oriunda da classe druídica da Irlanda aumenta a importância dos relatos e de sua relevância mística na nomeação das terras brasileiras.

Ao final de toda imram, chega-se ao Paraíso, as terras sem maldade, sem doenças, onde todos permanecem jovens: o mundo perfeito. As imramma podem ser, assim, vistas como jornadas míticas que nos levam a uma visão da perfeição, para que essa perfeição informe nossa ação no mundo em que vivemos – o trabalho de cura e transformação inspirada do mundo, função fundamental dos mitos e lendas de todos os povos.