domingo, 17 de agosto de 2014

La gaita gallega de D. Ventura Ruiz Aguilera e A Gaita Gallega de Rosália de Castro

Scott Fraga, músico carioca com sua
gaita galega  no evento"O Auto de São Roque" -
 Paquetá, Rio de Janeiro
agosto/2014. Foto: Jim Skea
La Gaita Gallega  (Eco Nacional) - Ventura Ruiz Aguilera (1860)
 *A mi querido amigo don Manuel Murguia.

I
Cuando la gaita gallega
el pobre gaitero toca,
no sé lo que me sucede
que el llanto a mis ojos brota.
Ver me figuro a Galicia
bella, pensativa y sola
como amada sin amado,
como reina sin corona.
Y aunque alegre danza entone
y dance la turba loca,
la voz del grave instrumento
suéname tan melancólica,
a mi alma revela tantas
desdichas, penas tan hondas
que no sé deciros
si canta o si llora.



II
Recuérdame aquellos cielos,
y aquelas dulces auroras y aquelas verdes campiñas,
y el arrulo de sus tórtolas;
y aquellos lagos, y aquellas
montañas que al cielo tocan,
todas as llenas de perfumes,
vestidos de flores todas,
de Dios abre su mano
y sus tesoros agota:
mas, ¡ay!, como me recuerda
también que hay alli quien dobla
en medio de la abundancia 
al hambre la frente torva,
no acierto a deciros
si canta o si llora.

III
Sueño, y cruzam mi espíritu 
puras, risueñas y hermosas
las sombras de los cien puertos
de que Galicia es señora.
Y lentamente pasando,
como ciudades que flotan,
van sus cien naves soberbias
al ronco son de la olas;
mas, ¡ay! como en ellas veo,
com el oro de sus costas,
sus tiernos hijos desnudos
que miran tristes a Europa,
pidiendo su pan amargo
a la América remota,
no acierto a deciros
si canta o si llora.

IV
 ¡Pobre Galicia...! Tus hijos
huyen de ti o te los roban,
llenando de íntima pena
tus entrañas amorosas.
Y como a parias malditos,
y como a tribus de ilotas
que llevasen en el rostro
sello de infamia y deshonra,
 ¡ay!, la patria los olvida,
la patria los abandona,
la miseria y la muerte
en su hogar desierto moran.
Por eso, aunque en son de fiesta
la gaita gallega se oiga,
no acierto a deciros
si canta o si llora.

V
 ¡Esperta, Galicia, esperta!
Lleva la cruz que te agobia,
regando con sangre y lágrimas 
esa vía dolorosa.
 ¡Tendrás sed...! Hiel e vinagre
te darán con mano pródiga,
y con corona de espinas,
cetro de caña con mofa;
pero los tiempos se acercan,
y cuando suene tu hora
feliz subirás y grande
a la cumbre de la gloria.
Hoy, si la gaita gallega,
el pobre gaitero toca,
no acierto a deciros
si canta ou si llora  


A Gaita Gallega (Resposta) - Rosália de Castro
Ao eminente poeta D. Ventura Ruiz de Aguilera

I
Cando este cantar, poeta,
na lira xemendo entonas,
non si o que por min pasa
que as lagrimiñas me afogan,
que ante de min cruzar vexo
a Virxen-mártir que invocas,
cos pes cravados de espiñas,
cas mans cubertas de rosas.
En vano a gaita, tocando
unha alborada de groria,
sons polos aires espalla
que cán nas tembrantes ondas.
En vano baila contenta
nas eiras a turba louca,
que aquele sons, tal me afrixen,
cousas tan tristes me contan,
eu podo decirche:
non canta, que chora.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Niamh, filha do Mar

Imagem: "Niamh and Oisin", P.J. Lynch.
Trazia na cabeça uma coroa real;
e um manto marrom de seda pura,
coberto de lantejoulas dourado-avermelhadas,
cobria-lhe os sapatos até a relva.

Uma argola dourada pendia
de cada caracol amarelo dos cabelos dourados;
os olhos azuis, claros e límpidos
como gotas de orvalho sobre a relva.

Mais vermelhas que a rosa das faces,
o rosto mais belo que o cisne na onda,
e mais doce que o mel a escorrer no vinho tinto
o gosto de seus lábios balsâmicos.

Uma capa larga, longa e macia
cobria o cavalo branco,
encimado por uma linda sela dourada-avermelhada,
E na mão direita ela segurava a rédea de pontas douradas.

Quatro ferraduras bem feitas sob as patas,
de ouro amarelo da mais pura qualidade;
Com uma guirlanda prateada na nuca,
não havia no mundo um cavalo melhor.

(Balada do poeta Irlandês Michael Comyn, século XVIII, descrevendo a bela Niamh, filha do Mar, ao se apresentar aos Fianna. Livro "Mitos e Lendas Celtas", Charles Squire)

Via: Druida do Vento





sábado, 16 de fevereiro de 2013

Brian Boru - O Último Grande Rei da Irlanda



BRIAN BORU - THE LAST GREAT HIGH KING OF IRELAND


 The line between Irish Legend and Irish Myth has often been blurred, especially as the retelling of heroic deeds has been passed on through generations. 

Brian Boru was no legend although his life deeds were legendary. He was very much a real man and was in fact the last great High King of Ireland and perhaps the greatest military leader the country has ever known. 

Brian Boru was born Brian Mac Cennétig. He mother was sister to the mother of Conor, the King of Connaught. 

His brother, Mahon, had become King of Munster in 951, upon the death of their father, Cennétig. Together they fought against the invading Norsemen, who had imposed taxes in Munster. This struggle eventually led to the murder of Mahon in 975 by the Ostermen (Norse). Brian avenged his brother's death by killing the King of the Ostermen of Limerick, King Ímar. 

From this point onwards Brian held Munster as his own, including the pivotal trade-centre of Limerick. He marched into Connaught and Leinster and joined forces with Mael Sechnaill II in 997. Together they divided Ireland between them. 

The Norse settlers in Dublin especially ranged against Brian but were defeated at Glen Máma where the King of Leinster was captured. The King of Dublin, Sitric Silkenbeard, was soon defeated too. 

In 1002 Brian demanded of his comrade Mael Sechnaill that he recognize him as King of Ireland. Mael agreed, partially because many of his own people viewed Brian as a hero who had restored Ireland to greatness after the Viking invasions. The rule of the UíNéill's was thus at an end as a non-O'Neill was proclaimed as King. The O'Neill's had been rulers for over 600 years. 

He earned his name as 'Brian of the Tributes' (Brian Boru) by collecting tributes from the minor rulers of Ireland and used the monies raised to restore monasteries and libraries that had been destroyed during the invasions. 

The Norsemen were not done yet however, and once more waged war on Brian Boru and his followers at Clontarf in Dublin in 1014. The King of Connaught, Tadhg O'Conor refused to ally with Brian against the Ostermen although Uí Fiachrach Aidne and Uí Maine did join with him. 

Despite the lack of backing from the men of Connaught, the Munstermen won the day but lost Brian Boru in the battle. This battle was a major turning point as it finally subjugated the Norse presence in Ireland who were henceforth considered subordinate to the Kingships of Ireland. Their military threat had been ended and they retreated to the urban centres of Dublin, Waterford, Limerick, Wexford, and Cork. They eventually became completely hibernicized and integrated into Gaelic culture. 

After his death and the death of one of his sons, his remaining sons, Tadg and Donnchad, were unable to assume the kingship which was assumed by Mael Sechnaill. He died in 1022 after which the role of High King of Ireland became more of a position in name only, rather than that of a powerful ruler. 

Perhaps the best that should be said of Brian Boru therefore, is that he was the last great High King of Ireland. 

Brian Boru - An article provided by The Information about Ireland Site. 

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Alan Stivell et Nolwenn Leroy chantent Brian Boru à l'Olympia (2012)











sábado, 8 de setembro de 2012

O Celtismo na Galiza hoje

Por José Manuel Nunes Vilar
Fonte original: Desperta do teu sono
Retirado de: Portal galego da Língua (publicado pelo site: Terça, 13 Setembro 2011 00:00)


É possível que falar de celtismo na Galiza seja tabu ainda quando cada vez há mais autores de diferentes nacionalidades que reconhecem anossa identidade céltica. É mais, situam aqui a génese dos povos que o tempo deu em chamar celtas. Os poderes metropolitanos parecem favorecer uma endogamia universitária destinada a dotar de coerência o artifício político e cultural que é Espanha. Porque é que se fala de cultura ou civilização castreja e não de celtismo galaico?

Beatriz Díaz Santana, (*mar shampla), diz que na atualidade o celtismo goza duma escassa aceitação académica e que as suas teorias são consideradas fantásticas e cientificamente falas. Será mesmo que pretendem isolar mais ainda o povo galego, reduzi-lo a uma mera comunidade autónoma dependente da metrópole ao despossui-lo da sua memória? Lembremos que isto é o que se faz na língua com a ILG-RAG. Neste sentido é que se pretende apresentar o galego como um idioma minoritário, desligado da língua portuguesa quando esta última apenas é mais uma variedade que trunfou e se normalizou como fala de Estado. Contudo, as publicações daqueles paladins do “politicamente correto” segundo os poderes metropolitanos começa, aos poucos, a falar de culturas atlânticas e mesmo de influências dos povos celtas.

Mas a opinião dos investigadores que também passaram pelas ilhas e pela Armórica vai muito mais longe: a Galiza é o berço dos povos celtas. Trata-se da teoria da continuidade paleolítica sustida, entre outros, por investigadores de renome internacional como Mário Alinei, Francesco Benozzo e Bryan Sykes, fundamentada em pesquisas linguísticas, arqueológicas e genéticas. Tudo aponta ao nascimento da civilização protocéltica na área compata que formavam as ilhas britânicas ligadas ao continente durante o Paleolítico. Deste modo é que os monumentos megalíticos foram uma das primeiras manifestações culturais duma série de povos atlânticos que o percurso do tempo daria em chamar de celtas e onde as mais antigas, depois das armóricas, são as galegas.

Não parece haver nas terras galaicas indícios duma influência externa, mas ao contrário, um espargimento cultural como as ondas que gera a queda duma pedra num estanque e cujo epicentro foi o que os romanos chamariam de Gallaecia. Poder-se-ia, ainda que imprudentemente, duvidar das pesquisas arqueológicas e linguísticas, mas a combinação de ambos elementos reforçada pela genética não parece deixar lugar a dúvidas quanto a que a Galiza é a pátria original da civilização celta. É o que sustem o prestigioso geneticista inglês Bryan Sykes ao dizer que os celtas que chegaram às Ilhas Britânicas procediam da Galiza e ainda quando o Leabhar Ghabhála não é uma fonte histórica válida, mas um legado mitológico, a coincidência é espantosa.

Fartos estamos de ouvir em muitos congressos, aulas de universidade e seminários o eufemismo “castrejo” num desesperado intento de justificar o legado histórico galego desde um ponto de vista forçado e isolacionista. Vem a ser o mesmo que sustêm Françoise Le Roux e Christian J. Guyonvarc'h em “A sociedade celta” quanto a que se está a atalhar o estudo do antigo desde uma perspetiva maioritariamente externa ao contexto próprio das velhas sociedades. Os apologistas da hispanidade tendem a obcecar-se com a obtenção de dados com a única vontade de conhecê-los, mas não de compreendê-los desde a cosmovisão que concede o método multidisciplinar. Limitam-se ao trabalho arqueológico e à interpretação estéril de qualquer achega linguística e antropológica.

Não se pode esperar entender nem o mais mínimo uma sociedade apenas pelo seu estudo material. A comunidades tradicionais são indivisíveis e, por enquanto, a sua análise é irreduzível a uma só disciplina. Todo nelas está estreitamente relacionado e emerge da religião como causa e fim. Tanto é assim que a velha sociedade é produto do pensamento religioso, não da arbitrariedade. Daquela como pode ser que haja investigadoras que estudam o celtismo galaico desde o panteão latino?

Lembremos o exemplo do ídolo achado em Aquis Querquenis de Bande, na Baixa Lima, região de Ourense. Trata-se dum acampamento militar romano, mas sabido é o costume de recrutar indígenas como tropas auxiliares aos que se lhes concederia a cidadania romana caso sobreviverem aos 25 anos de serviço. Assim é que baixo da armadura romana seguiam sendo galaicos que conservavam os seus credos e que, por enquanto, se encomendavam às suas deidades.

Este ídolo achado em Aquis Querquernis é, sem dúvidas, Bandua e não por acaso. Na figura, além do seu capacete e as suas roupas claramente célticas, pode-se apreciar perfeitamente a corda que a lenda diz Bandua levava ao peito e, por outra parte, também pode ser significativo o topónimo local de Bande, mas os responsáveis do estudo arqueológico da zona etiquetaram a estatuínha com o nome de Marte, quando de romana só tem o feito de ser estátua -reparar em que os celtas não edificavam templos nem concebiam às deidades em forma de objeto- Se calhar negam-se a analisar de perto a possível relação existente com a toponímia e com a mitologia indígena. Também é possível que se achem seduzidos pela ideia de apresentar ao mundo os nossos manifestos culturais com os olhos da romanidade e não com os indígenas e próprios.


Por último, mas não menos importante, cumpre pensar no motivo pelo qual os isolacionistas históricos falam de castro. Que é o que faz com se fale de castrejos e não de celtas? Qual é o componente genuíno que impede outra nomenclatura? Não será o facto de os antigos galaicos serem uma povoação dispersa onde cada castro é politicamente autónomo, porque daquela também poderse- ia dizer que todos os povos celtas são “castrejos”. A atomização não é algo genuíno dos celtas galaicos. Se bem é certo que pelo facto de partilharem língua, credo, arte.., poder-se-ia falar de nações celtas, mas na altura não existia essa consciência nem mais patriotismo que o da própria família e aldeia. Daquela não estamos perante algo tão singular como para distinguir aos galaicos do resto dos povos celtas. Por outra parte, certo é que a maior distância maior especialização tem lugar e por isso podemos falar de deidades próprias dum ou doutro “castro”, o que acontece em qualquer terra celta, mas está claro que a presença do panteão intercéltico está presente também na Galiza tal e como o testemunha a toponímia. Intentar apresentar o mundo galaico como algo sem raízes, particular do noroeste peninsular que como muito recebeu influências dos povos celtas é pura demagogia intelectual made in spain e que aos pouco está a ficar ignorada e contradita pela comunidade científica internacional.

Notas:
1. Mar shampla, gaelicismo: o mesmo que verbi gratia.


Bibliografia
Díaz Santana, Beatriz. “Os celta en Galicia: arqueoloxía e política a creación da identidade galega” Noia (A Crunha). Editorial Toxos Soutos Serie Keltia. 2002.
Le Roux, Françoise; Guyonvarc'h. “A sociedade celta” Portugal. Publicações Europa-América.1991.
Balboa Salgado, António. “A Galicia celta: a relixión” Santiago (Galiza). 2002.
Conde, María. “Una teoría de investigadores italianos sitúa en Galicia la cuna del mundo celta”. La Voz de Galicia. Sábado 21 de outubro de 2006. Sociedade, página 29.


Espaços web relacionados

Instituto Galego de Estudos Célticos http://www.estudosceltas.org/?q=gz/node/45
The Paleolithic Continuity Paradigm http://www.continuitas.org/textsauthor.html



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Olhem agora para a Europa os brasileiros, futuro do passado. Aí, na esquina capilar com que o rosto fita o Atlântico ...GALIZA. Um território que sendo Espanha não é bem Espanha

Trecho retirado do artigo:CARTA A EL-REI DOM BRASIL SOBRE O ACHAMENTO DA GALIZA -J. Carlos Quiroga D -  Santiago de Compostela, Outubro de 1996 .

RESUMO:
Visita ao quarto mais antigo e esquecido da casa-comum da lusofonia. A Galiza. Sobretudo para lembrar que o é. Sobretudo aos brasileiros. Mas cabem todos os olhos. Abre-se com chave literária a porta deste canto ocidental da Europa e passam por instantes algo da sua história que nos liga, algo do divórcio a que nos obrigaram, algo do presente da língua galega, do debate entre ortografia espanhola ou portuguesa para ela.







"Olhem agora para a Europa os brasileiros, futuro do passado. Aí, na esquina capilar com que o rosto fita o Atlântico podem achar talvez o seu passado ainda presente, a partícula de quase 30 mil Km2 chamada Galiza. Um 5,8 % do território espanhol, uns 3 milhões de habitantes. Um território que sendo Espanha não é bem Espanha. Conheço vários brasileiros que andam por cá [...], e nenhum teve de mudar a sua forma de falar para entender-se aqui.Tanto tempo de dominação espanhola não conseguiu apagar a base do que a todos nos une. Sabem os da Terra de Santa Cruz, a posteriormente chamada Brasil, que a sua língua geral nasceu aqui, neste cantinho atlântico? Alguns devem saber. Mas sabem também que aqui continua falando-se o galego, que hoje tem co-oficialidade com o espanhol, que temos Parlamento próprio, ensino, TV, cultura em galego, e ainda um debate entre os partidários de uma ortografia espanhola (a postura oficial) e os partidários de uma aproximação ao português (a postura de alguns de nós)?"


ALGO DE HISTÓRIA

O português é língua falada actualmente em amplas regiões do mundo por mais de duzentos milhões de pessoas. Idioma oficial em sete estados, presente em numerosos organismos internacionais. Fala-se até em diversos territórios não soberanos onde a sua oficialidade não está reconhecida. Todo o mundo sabe. Mas, não podendo ter sido sempre assim, valeria a pena lembrar aos brasileiros algo da sua história que menos parecem lembrar, a parte em que a semente da árvore abrolhava em origem, antes de ser-lhes levada em ramo pelos portugueses, para depois voltar a olhada de novo ao presente dessa reduzida terra da planta original. A nossa história.

Os romanos chegam à Península Ibérica no ano 218 a. de C., e tem de passar quase dois séculos para que Augusto, com sua presença e um enorme exército (ano 26 a. de C.), comece a apagar definitivamente as guerrilhas resistentes do Norte. Aí estávamos nós. Aí aconteceu o mítico suicídio do monte Medúlio, onde se amparavam grande parte das tribos galaicas, que preferiram a morte antes do submetimento. Com a vitória romana, a língua e os costumes envolvem todo o território. Em 212 o imperador Caracalla estende o direito de cidadania a todos os súbditos livres do Império. Incorporamo-nos a falar o imperial latim. Seguramente já havia peculiaridades na forma de fazê-lo nos diversos cantos do Império, mas a coesão política durante a época imperial (comunicações, administração, serviço militar) mantinha em certo grau uniforme esse latim "vulgar". No ano 409 invadem a Península os Alanos, Vándalos e Suevos. Estes últimos assentam-se na Galiza por mais de um século. A cultura romana secular é vista ainda como superior, e a sua língua fica, mas desfeito o Império, e convertidas as províncias em estados bárbaros, isoladas umas das outras, entre os séculos VI e IX aparecem diferenças notáveis entre o latim falado na área galego-portuguesa e nas outras. Os visigodos, aproveitando e adapatando-se aos quadros administrativos que encontraram, não alteram em essência a fisionomia social e linguística da Península (pelo contrário, isolando-a do resto do Império, acentuam o carácter conservador e arcaizante), deixando apenas formas léxicas, topónimos e antropónimos. Nesta altura, as tribos dispersas da Arábia iniciam a guerra santa. Em 711 os caudilhos Tarique e Muça iniciam a conquista da Península Ibérica, quase completando-a em em sete anos (haverão de passar vários centos até serem expulsos pelos hispanos). Quase, porque o Norte nunca teve uma dominação permanente, recebendo ataques esporádicos, como o saque desta cidade em que escrevo em 997 por Almançor. Linguisticamente a influência árabe foi mínima, pois traziam uma língua semita e não indoeuropeia. Mas será provavelmente no século VIII quando o latim peninsular se fragmenta, aparecendo vários domínios linguísticos coincidentes com blocos geo-políticos que lutam contra os mouros. Os filhos do latim começarão a descer reconquistando desde o Norte: catalão, aragonês, castelhano, astur-leonês e galego-português. No sul, sob dominação árabe, teriam ficado cristãos utentes ainda de uma modalidade desse latim: o chamado moçárabe, mal conhecido e sem restos, incorporando-se paulatinamente aos reconquistadores. Deixamos de parte o único resto de língua anterior aos romanos, o euskera, viva então e agora (constituindo na actualidade a referência nacionalista mais enérgica da Espanha, inclusive com luta armada em prol da independência), que ocupando a zona norte passa também a território francês. A vária sorte da guerra prolongada determina que o castelhano corte a passagem para o sul aos falares vizinhos, ficando apenas, desde a Idade Média até hoje, três grupos linguísticos românicos fortemente constituídos pela tradição, pela literatura, e pela firme vontade dos seus habitantes: o castelhano no centro, o galego-português e o catalão aos lados; essas línguas, junto com o euskera, são as hoje existentes. Também é essa sorte que determina que nesse momento (séc. XII) o território da Galiza fique integrado no bloco político aglutinado pelo castelhano, enquanto o território entre Minho e Douro continua avançando com os repovoadores cristãos até ao sul de Portugal. A um e o outro lado da fronteira emprega-se então o mesmo "falar", o galego-português em que na IdadeMédia se recolhe o inestimável tesouro lírico formado pelas cantigas, guardado geralmente em várias recopilações denominadas Cancioneiros. Completada a Reconquista pelo reino português,com a incorporação de todos os territórios da faixa ocidental peninsular salvo a Galiza, Portugal iniciará uma segunda fase expansiva, esta vez de tipo marítimo, que o vai levar muito além das fronteiras do mundo então conhecido: conseguem passar além do cabo Bojador em 1437 por meio de Gil Eanes (espécie de fronteira mítica porque se supunha o último lugar habitável para o sul), e a partir desse momento sucedem-se os descobrimentos ao longo da costa africana. Diogo Cão chega até ao rio Zaire em 1482, Bartolomeu Dias ultrapassa o cabo da Boa Esperança em 1488, e fica aberta definitivamente para Portugal a rota da Índia, aonde chega Vasco da Gama em 1498. Em 1513 os portugueses entram já em contacto com a China e em 1541 chegam ao desconhecido Japão. Por outro lado, entre 1500 e 1502, chegam também a Groenlândia, Terranova e ao Canadá, e até se crê que também puderam ter visitado Austrália. Respeito ao Brasil que me lê, há fundadas suspeitas de que também tivessem arribado às suas costas antes da famosa viagem de Cristóvão Colombo (1492). Seja como fosse, PedroÁlvares Cabral ia chegar já, por casualidade ou não, àquelas terras em 1500. De Pero Vaz de Caminha e de tanta coisa que seguiu já devem saber os brasileiros mais do que eu.
[...]
Artigo completo: http://lfilipe.tripod.com/CQuiroga.html

Pedra dos Namorados, CamariñasGaliza
http://migre.me/akzbA


Bem, abaixo segue o hino da Galiza. Ai está ele para demonstrar o porque Galiza um território que sendo Espanha não é bem Espanha...e para quem não conhece o "Galego", conhecer. 

O himno galego conxuga o poema Os pinos de Eduardo Pondal :


¿Que din os rumorosos
na costa verdecente,
ao raio transparente
do prácido luar?
¿Que din as altas copas
de escuro arume arpado
co seu ben compasado
monótono fungar?

Do teu verdor cinguido
e de benignos astros,
confín dos verdes castros
e valeroso chan,
non des a esquecement
da inxuria o rudo encono;
desperta do teu sono
fogar de Breogán.

Os bos e xenerosos
a nosa voz entenden
e con arroubo atenden
o noso ronco son,
máis sóo os iñorantes
e féridos e duros,
imbéciles e escuros
non os entenden, non.


Os tempos son chegados
dos bardos das edades
que as vosas vaguedades
cumprido fin terán;
pois, onde quer, xigante
a nosa voz pregoa
a redenzón da boa
nazón de Breogán.










O post para muitos pode parecer sem nexo, porém para mim faz completo sentido. O primeiro trecho é de um texto de Carlos Quiroga professor na Univiversidade de Santiago de Compostela. O segundo texto é o hino galego,o poema Os pinos de Eduardo Pondal (poeta importante do "Rexurdimento" galego - em breve tratarei sobre isso aqui) - , que está onde está para mostrar a proximidade do galego e do português.






Sláinte,
Fernanda Castro.








terça-feira, 10 de julho de 2012

FIONN E O SALMÃO DA SABEDORIA - Um Conto Bárdico

Origem: Ordem dos Bardos, Ovates & Druidas
por Alexandre Gabriel


Artigo originalmente publicado em "Mandrágora - O Almanaque Pagão - 2011: No Bosque Sagrado dos Druidas" (© Zéfiro, 2010. Todos os direitos reservados).







Muitos anos antes de Fionn se tornar no grande chefe guerreiro dos Fianna, o seu nome de criança era Demne Máel e a certa altura da sua juventude viu-se confrontado com a morte do seu pai às mãos de Goll MacMorna, chefe do Clã Morna, na Batalha de Castleknock, na Irlanda. Temendo pela sua vida, Fionn decidiu fugir, procurando refúgio no lago Linn Fiach. Aí habitava o bardo Finnéces, a quem Fionn pediu que lhe ensinasse as artes bárdicas, pois sabia que jamais alguém ousaria levantar um dedo que fosse a um poeta, que era uma classe digna de grande respeito por todos.


Finnéces aceitou-o como discípulo e contou-lhe a história que o tinha levado até aquele lugar: dizia-se que habitava nas profundezas tranquilas deste lago do rio Boyne o Salmão da Sabedoria, que concederia todo o seu Conhecimento e Saber àquele que primeiro o comesse, o que tinha atraído diversas pessoas ansiosas por encontrar este peixe sagrado. Para além disso, circulava também uma profecia, segundo a qual caberia a um jovem chamado Fionn alcançar o êxito nesta demanda.


Tinham já passado sete longos anos desde que Finnéces tinha acampado nas margens do lago, aí permanecendo dia e noite, segurando a sua cana de pesca, à espera que o divino salmão mordesse o seu isco, trazendo-lhe a tão desejada iluminação.


Pouco tempo depois da chegada de Fionn, a cana de Finnéces mexeu-se e remexeu-se com uma violência fora do comum. Não era um peixe qualquer. Finnéces puxou a cana e ficou pasmado, tinha nas suas mãos o Salmão da Sabedoria. Radiante de alegria, pediu a Fionn que cozinhasse o peixe, mas ordenou-lhe que não comesse a sua carne, fosse por que motivo fosse. Fionn assim fez, mas enquanto preparava o cozinhado reparou numa bolha na pele do peixe e tentou rebentá-la. Porém, ao fazê-lo, queimou o dedo no peixe a escaldar e instintivamente levou-o à boca, chupando-o para aliviar a dor. Assim, de forma inadvertida, acabou por adquirir todo o conhecimento do mundo, bem como os dons da sabedoria e da adivinhação. Ao saber do sucedido, Finnéces apercebeu-se que a profecia se tinha cumprido. Fê-lo então abandonar o nome de Demne, passando a chamá-lo de Fionn. A partir de então, sempre que chupava o dedo, todos os segredos do mundo lhe eram revelados.





Nota: Esta narrativa plena de simbolismo tem muitas semelhanças com a história de Taliesin, proveniente do País de Gales, na qual Gwion (palavra galesa que tem correspondência com o irlandês Fionn) adquire igualmente a sabedoria, de uma forma inadvertida, enquanto cuidava do Caldeirão da deusa Ceridwen.


Um dos significados atribuídos a Finnéces, que significa “Sabedoria Branca”, é “Fionn, o Vidente” e muitos autores consideram-no como sendo um duplo do próprio Fionn. Fionn será, aliás, uma alcunha que significa “belo” ou “branco”, que terá sido dada ao jovem Demne (que significa “certeza”) quando o seu cabelo ficou prematuramente branco, conforme nos contam as lendas.





Leitura Adicional:
VARANDAS, Angélica, Mitos e Lendas Celtas da Irlanda, Livros e Livros, 2006.
VARANDAS, Angélica, Mitos e Lendas Celtas do País de Gales, Livros e Livros, 2007.
MATTHEWS, John & Caitlín, Taliesin: The Last Celtic Shaman, Vermont, Inner Traditions, 2002.





domingo, 3 de junho de 2012

OGHAM

Writtenby Jenni Irving, published on 11 May 2012 under the following license: Creative Commons: Attribution-NonCommercial-ShareAlike. This license lets others remix, tweak, and build upon this content non-commercially, as long as they credit the author and license their new creations under the identical terms.



Definition

fol. 170r of the Book of Ballymote (AD 1390), part of the Auraicept na n-Éces, explaining the Ogham script. the page shows varianst of Ogham, nrs. 43 to 77 of 92 in total, including shield ogham (nr. 73). Based on Wikipedia content that has been reviewed, edited, and republished. Original illustration by Dbachmann.
One of the stranger ancient scripts one might come across, Ogham is also known as the ‘Celtic Tree Alphabet’. Estimated to have been used from the fourth to the tenth century AD it is believed to have been possibly named after the Irish god Ogma but this is debated widely. Ogham actually refers to the characters themselves, the script as a whole is more appropriately named Beith-luis-nin after the order of alphabet letters BLFSN.

Description

The script originally contained twenty letters grouped into four groups of five. Five more letters were later added creating a fifth group. Each of these groups was named after its first letter. There are some four to five hundred surviving ogham inscriptions throughout Britain and Ireland with the largest number appearing in Pembrokeshire. The rest of the inscriptions were located around south-eastern Ireland, Scotland, Orkney, the Isle of Man and around the border of Devon and Cornwall. Ogham was used to write in Archaic Irish, Old Welsh and Latin mostly on wood and stone and is based on a high medieval Briatharogam tradition of ascribing the name of trees to individual characters. The inscriptions containing Ogham are almost exclusively made up of personal names and marks of land ownership.

Origin Theories

There are four popular theories discussing the origin of Ogham. The differing theories are unsurprising considering that the script has similarities to ciphers in Germanic runes, Latin, elder futhark and the Greek alphabet.

The first theory is based on the work of scholars such as Carney and MacNeill who suggest that Ogham was first created as a cryptic alphabet designed by the Irish. They assert that the Irish designed it in response to political, military and/or religious reasons so that those with knowledge of just Latin could not read it.

The second theory is held by McManus who argues that Ogham was invented by the first Christians in early Ireland in a quest for uniqueness. The argument maintains that the sounds of the primitive Irish language were too difficult to transcribe into Latin.

The third theory states that the Ogham script from invented in West Wales in the fourth century BC to intertwine the Latin alphabet with the Irish language in response to the intermarriage between the Romans and the Romanized Britons. This would account for the fact that some of the Ogham inscriptions are bilingual; spelling out Irish and Brythonic-Latin.

The fourth theory is supported by MacAlister and used to be popular before other theories began to overtake it. It states that Ogham was invented in Cisalpine Gaul around 600 BC by Gaulish Druids who created it as a hand signal and oral language. MacAliser suggests that it was transmitted orally until it was finally put into writing in early Christian Ireland. He argues that the lines incorporated into Ogham represent the hand by being based on four groups of five letters with a sequence of strokes from one to five. However, there is no evidence for MacAlisters theory that Ogham’s language and system originated in Gaul.

Mythical theories for the origin of Ogham also appear in texts from the eleventh to fifteenth centuries. The eleventh century Lebor Gabala Erenn tells that Ogham was invented soon after the fall of the tower of Babel, as does the fifteenth century Auraicept na n-eces text. The Book of Babymote also includes ninty-two recorded secret modes of writing Ogham written in 1390-91.

Ogham writing on standing stone, seen on the right-hand side of the picture.

One of the stranger ancient scripts one might come across, Ogham is also known as the ‘Celtic Tree Alphabet’. Estimated to have been used from the fourth to the tenth century AD it is believed to have been possibly named after the Irish god Ogma but this is debated widely. Ogham actually refers to the characters themselves, the script as a whole is more appropriately named Beith-luis-nin after the order of alphabet letters BLFSN. (Imagem originalmente publicada na página de Ireland Alive- History Landscape Culture And The Irish Today:  ) 

BIBLIOGRAPHY
Carney, James. "The Invention of the Ogam Cipher." Ériu 22/1975. 62-63.

Macalister, Robert A.S.. The Secret Languages of Ireland. Cambridge University Press, 1937. Page(s) 27-36.

Macalister, Robert A.S.. Corpus inscriptionum insularum celticarum. First edition. Dublin, 1945.

MacNeill, Eoin. "Archaisms in the Ogham Inscriptions." Proceedings of the Royal Irish Academy 39. 33-53.






sábado, 28 de abril de 2012

Desperta do teu sono: Galiza: a Galtia, berço dos celtas.

Desperta do teu sono: Galiza: a Galtia, berço dos celtas.


Por David Outeiro

"Segundo o Lebhar Ghabála Érenn (Livro das invasões de Irlanda, S II) a última vaga chegou a Irlanda desde o reino deBrigántia, a terra de Breogan e dos Milesianos, a atual Galiza. Foi Ith, filho de Breogan, quem alviscou a ilha desde uma Torre. Ith embarcou-se de cara aquela ilha, mas os nobres nativos decidiram assassiná-lo. Os Milesianos, celtas goidélicos de Brigántia (Bergantinhos), embarcaram-se rumo a Ilha para vingar a morte de Ith. Após chegar a Irlanda, encaminhar-se-ia a Tara para reclamar a soberania da ilha. Durante o caminho aparecem-se Banba, Fodla e Ériu; tríade divina que representa as deusa-mãe da soberania, a mulher do rei celta. Os Milesianos, com a ajuda do seu druida Amergin, vencem finalmente aos Tuatha Dé Dannan. Por causa disto, os Irlandeses sempre acreditaram ser descendentes de galegos."


Postagem completa em:
http://despertadoteusono.blogspot.com.br/2012/03/galiza-galtia-berco-dos-celtas.html





terça-feira, 27 de março de 2012

O nome do Brasil e o mundo céltico




A mitologia céltica está presente ainda hoje nos países de tradição atlântica, e entre eles, a Galiza e o Portugal originariamente galaico, ainda que dous dos países onde vulgarmente é mais conhecido e reconhecido o seu caráter céltico são a Irlanda e a Bretanha. Nestes países as mitologias referidas a heróis guerreiros ou as hagiografias referidas a santos assimilados a partir de lendas pré-cristãs estão presentes ainda neste século XXI.

Neste artigo que começo, quero resgatar o relacionamento que há entre uma velha lenda irlandesa mas também bretã e o étimo que nos chega muito pertinho aos galegos, tanto pelo que de celta tem o tema, quanto de lusófono. Esta é a etimologia do grande e irmão país sudamericano que muitos galegos vemos verde não só pela cor das suas matas, mas pela esperança que em nós alimenta. É a etimologia do Brasil:

Assim, contam-nos as lendas atlânticas que foi Breasail o grande Rei do mundo que vivia numa ilha do Atlântico, para além do ocidente da atual Irlanda. O seu país era chamado Hy-Breasail e só podia ser visto um dia cada sete anos porque a brétema perpétua só isso permitia para que os olhos da gente pudessem admirar a beleza daquela terra perdida no oceano.

Ele e os seus chegaram a velha Irlanda chefiando as tropas dum exército que lutaria contra os habitantes da ilha cujo Rei daria em doação terras aos invasores onde segundo também conta a lenda fundaram a cidade de Gaillimh, conhecida com a grafia inglesa como Galway, que é o nome da filha do Rei Breasail -Gaillim inion Breasail-, afogada no rio Corrib que discorre por essa cidade.

Os descendentes de Breasail seriam os O’Breasail de Irlanda, nome familiar ainda existente hoje e a ilha da qual procediam foi assimilada com a Ilha de Ávalon, Tir na nOg e mesmo a perdida Atlântida com a qual partilha muitas similitudes.
A palavra “Breasail” acolhe grande variedade de formas em gaélico: Brasil, Berzil, Brazir, Breasil... e tem sido bastante comum como nome de pessoa graças a que o mito foi cristianizado e daí deu o nome do santo irlandês Brecan (Breogam ?????).

Breasail parece significar “Vermelho” em gaélico, que é o nome que recebe também o cinábrio ou sulfureto de mercúrio, mineral de cor vermelha e brilhante utilizado para pôr cor nos cabelos e no corpo das pessoas. Este nome gaélico dá na nossa língua “varzino”, em castelhano “bracino” e mesmo em catalão “barcino” donde poderia derivar a palavra Barcelona (BARKINONAN>Barcelona em acusativo céltico segundo Higino Martins língua franca na península e na Gália em época pré-romana).Quiçá tivesse a ver com a cor dos cabelos do herói do que estamos a falar como também do cinábrio com que comerciariam os próprios povos célticos com os mediterrânicos latinos, fenícios e gregos (lembremos que o nome de “fenícios” vem do grego “Phoenikés” que significa “púrpura” ou vermelho, cor com que tingiam os tecidos com os que comerciavam graças a uma fórmula especial que eles conheciam)

É de todos sabido que a Idade Média não é época de conhecimentos científicos contrastados e empíricos tal como os percebemos hoje, mas todo o contrário, é época de mitos e de lendas transmitidas de forma oral e poucas vezes escrita. Essas lendas seriam crenças populares cuja veracidade não tinha discussão na altura, sendo pelo contato cultural e comercial de tradição milenar como se espalhariam estas histórias entre os povos atlânticos. Por isso era totalmente real para a gente do medievo a existência de ilhas como a Antilia, a Ilha de São Brandão, a Ilha das Sete Cidades, as Ilhas Afortunadas e a Ilha de Hy Brasil, Ibrasil, Brasil ou Breasail. Essa visão do cosmos era representada sem qualquer dúvida nos cartulários anteriores ao chamado “descobrimento” de América como podemos comprovar nos mapas de Dalorto (1325), Dulcert (1339), Laurazziano-Gaddiano (1351), Piziganni (1367), Giraldi (1426), Giovanni di Napoli (1430), Beccario (1426 e 1435) Valsequa (1439), Bianco (1448), Pareto (1455), o anónimo de Weimar (1481), Benicassa (1482), Juan de la Cosa (1500)... representando-se em todos eles como uma ilha com um lago interior e com forma anelar. O próprio Cristóvão Colombo teve que estar em contato com esses mapas, pois como se nos informa em textos conservados hoje, ele foi cartógrafo durante muitos anos em Lisboa.

Segundo a informação que tiramos do Atlas de Oliveira Marques e Alves Dias “Atlas Histórico de Portugal e do Ultramar português”, o navegador Duarte Pacheco Pereira chegou à terra dos tupis em 1498, dous anos antes da chegada do descobridor oficial do Brasil Pedro Álvares Cabral e cinco depois de alguma outra expedição da qual não temos ainda toda a informação mas da que algo sabemos. A região aonde estes navegadores chegaram recebe o nome de “Ilha de Santa Cruz”; posteriormente há de ser “Terra de Santa Cruz” e só poucos anos depois é que vai receber o seu nome definitivo de “Brasil” por acreditavam os coevos que aquela era um ilha afastada do resto do continente americano pelos rios Orinoco, Paraguai e Rio da Prata. Era a terra que identificavam com a mítica ilha registada em todas as cartografias e em todas as informações textuais desde a “Insulae Purpuraricae” (Ilha Vermelha ou de cor Púrpura) do romano Plínio o Velho

A tradição mais recente faz derivar “Brasil” do pau-brasil que tem um dos seus extremos vermelhos como as brasas, sendo esta uma planta muito importante para o comércio português, mas também é o nome das madeiras de cor avermelhada para tintura que foi denominada de Brisilicum pelo Duarte Pacheco em 1505, ou “Tinta do Brasil”.
Todos estes enganos favoreceram a confusão na altura da etimologia do Brasil como sinónimo da ilha do Além atlântico com o nome duma ou várias madeiras e mesmo de “brasa”.

Diz-nos Frei Vicente do Salvador que o nome do Brasil foi inspirado pelo diabo, pois Santa Cruz (o primeiro nome que recebeu o país) era referido à madeira da cruz onde fora crucificado Jesus Cristo e em troca “Brasil” era madeira mundana.
De qualquer jeito parece-nos que o nome originário céltico pode dever-se não unicamente à tradição cartográfica medieval mas também aos contatos entre a Irlanda, também a Bretanha, onde aparece também a lenda de Ilha do Além com o mesmo nome do que estamos a falar e destinada a receber os guerreiros que tiveram uma morte honrosa no campo de batalha, e a Galiza com Portugal, como prolongações do mundo céltico e atlântico em contato milenar com as Ilhas Britânicas e a própria Armórica. Eis o vínculo entre esse mundo atlântico europeu com o grande Brasil...e acreditamos que pelo meio está o elo da Galiza, ponto de conexão entre ambos mundos: o céltico e o lusófono.

Bibliografia:


Ana Donnard: O outro mundo dos celtas atlânticos e a mítica Brasil, ilha dos afortunados: primeiras abordagens.NuntiusAntiquus.

J. Chrys Chrystello: Chronicaçores: Uma circum-navegação. De Timor a Macau, Austrália, Brasil, Bragança até os Açores. (Volume 1) http://es.scribd.com/doc/39955110/CHRONICACORES-UMA-CIRCUM-NAVEGACAO-DE-TIMOR-A-MACAU-AUSTRALIA-BRASIL-BRAGANCA-ATE-AOS-ACORES-VOLUME-UM-DA-TRILOGIA

Quintus: As Ilhas míticas do Atlântico: Ilha Brasil http://movv.org/2006/11/26/ilha-brazil/